Carta aberta aos participantes e assistidos da NÉOS PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR

Afastaram uma representante.
Colocaram em risco a representação.

Uma reflexão sobre representação democrática, governança e os direitos dos participantes e assistidos da previdência complementar.

Capa de A Luz Online, edição 24/2026
Edição 24/2026

Carta aberta

Fui destituída do cargo de Diretora de Seguridade e Benefícios da NÉOS Previdência Complementar sob a alegação de conflito de interesses, decorrente de uma denúncia anônima, em razão da minha atuação como dirigente sindical. No entanto, essa condição sempre foi pública, transparente e de pleno conhecimento da entidade desde o meu primeiro mandato na NÉOS em janeiro/2020 até 30/06/2026. Durante todo este período, exerci minhas funções com ética, responsabilidade e absoluto compromisso com os participantes e assistidos.

A denúncia baseou-se em alegações genéricas de potencial conflito de interesses, desacompanhadas de elementos concretos capazes de delimitar o objetivamente a imputação.

A justificativa utilizada para fundamentar minha destituição consistiu na existência, em minha caixa de e-mail corporativa, de documentos relacionados às negociações do Termo de Compromisso e de minutas que, desde 2019, circulavam entre os representantes dos participantes e assistidos e os representantes das patrocinadoras envolvidos nessas tratativas. Trata-se de documentos amplamente conhecidos por todos os integrantes do processo negocial, cuja circulação ocorria de forma regular, inclusive mediante convocações promovidas pela própria patrocinadora Neoenergia para participação nas reuniões de negociação.

Na realidade a minha destituição ocorreu como perseguição pelo fato do SINTERN não concordar com os instrumentos de transição que foram pactuados entre a NÉOS e o SINERGIA-BA e entre a NÉOS e o SINDURB-PE.

No processo administrativo, instaurado pela NÉOS, que motivou a minha destituição, não se verificou, da minha parte, voto lesivo, deliberação irregular, dano ao patrimônio dos planos, obtenção de vantagem pessoal, desvio de recursos, ou qualquer violação concreta ao dever fiduciário no exercício das funções exercidas por mim. O próprio processo administrativo confirma a ausência desses elementos.

Não bastasse a perseguição no exercício do mandato de diretora, após a destituição do cargo, a Neoenergia Cosern instaurou um inquérito para verificação de falta grave, no âmbito da Justiça do Trabalho, na tentativa de aplicar a penalidade máxima no vínculo empregatício que é a demissão por justa causa, configurando claramente uma atitude antissindical, discriminatória de retaliação e de tentativa de silenciamento, em razão da minha condição de dirigente sindical.

quando a representação passa a ser o verdadeiro alvo

Este caso não diz respeito apenas à destituição de uma diretora eleita, mas coloca em discussão um dos pilares da previdência complementar: a participação efetiva de representantes eleitos na defesa dos interesses dos participantes e assistidos.

É da própria natureza do sistema que representantes dos participantes e assistidos mantenham vínculo com as entidades sindicais e associações de classe que os representam, assim como os representantes das patrocinadoras, em sua grande maioria, mantêm vínculo direto com suas empresas, ocupando cargos de confiança como direção, gerência ou superintendência.

Esse equilíbrio entre diferentes representações constitui um dos fundamentos da boa governança. É justamente nesse ponto que surge uma reflexão inevitável. Se o vínculo de representantes eleitos com sindicatos e associações é considerado suficiente para suscitar alegações de conflito de interesses, por que a mesma lógica não é aplicada aos representantes indicados pelas patrocinadoras, que mantêm vínculo funcional direto com as empresas que representam? Existem critérios distintos para situações que, em essência, decorrem do próprio modelo de governança previsto para as Entidades Fechadas de Previdência Complementar?

Essa reflexão não busca desqualificar a legitimidade dos representantes das patrocinadoras, cuja participação é igualmente prevista no modelo de governança. Busca, isto sim, questionar se os mesmos critérios estão sendo aplicados de forma isonômica a todos os segmentos de representação.

A quem essa destituição serviu?

A minha destituição não fortaleceu a NÉOS Previdência Complementar, na realidade, enfraqueceu a representatividade dos participantes e assistidos e acabou privilegiando os interesses das patrocinadoras, que passaram a ter menor contraponto na defesa dos direitos daqueles que confiam seu patrimônio previdenciário à entidade.

Sempre acreditei que a boa governança se constrói pelo equilíbrio entre os diversos interesses envolvidos, respeitando a autonomia da entidade e a atuação legítima de representantes eleitos. Quando uma voz escolhida democraticamente pelos participantes e assistidos é afastada, esse equilíbrio é colocado em xeque.

O sistema de previdência complementar precisa refletir sobre esse precedente. Se representantes legitimamente eleitos puderem ser afastados por exercerem justamente a missão de representar aqueles que os elegeram, estaremos diante de um cenário que merece profunda atenção de participantes, assistidos, patrocinadoras, entidades representativas e a PREVIC.

A grande pergunta permanece: quem ganha quando a voz dos participantes perde espaço na governança?

Espero que minhas palavras contribuam para fortalecer o compromisso de todos com uma governança cada vez mais transparente, plural, independente e comprometida com o interesse coletivo. Instituições sólidas não se constroem pelo silêncio diante das divergências, mas pela capacidade de respeitar a representação democrática, valorizar o diálogo e preservar a confiança dos participantes e assistidos. É nessa previdência complementar que acredito, defendo e continuarei ajudando a construir.

O silêncio nunca construiu instituições fortes. A democracia, sim.

Coerente com a trajetória de transparência, ética e responsabilidade que sempre pautou o exercício do meu mandato, comunico aos participantes e assistidos que, em 22 de julho de 2026, apresentei denúncia à Superintendência Nacional de Previdência Complementar – PREVIC. O órgão fiscalizador aceitou a denúncia, notificou à NÉOS e deu início ao procedimento de apuração, que se encontra em andamento. Causa estranheza que esse fato não tenha sido igualmente divulgado pela NÉOS em seus canais oficiais de comunicação. A divulgação da minha destituição ocorreu de forma célere e ampla. Entretanto, quando se tratou da existência de uma denúncia formal submetida ao órgão fiscalizador, a entidade optou pelo silêncio até o fechamento desta carta.

Até breve,

Liane Câmara Matoso Chacon

Posicionamento do SINTERN

O silêncio não é uma opção diante de fatos que colocam em risco a boa governança

O Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Energética e Empresas Prestadoras de Serviços no Setor Elétrico do Rio Grande do Norte – SINTERN manifesta seu mais veemente repúdio às decisões adotadas pelo Conselho Deliberativo da NÉOS Previdência Complementar que culminaram na destituição de Liane Chacon, na destituição de José Fernandes e na advertência aplicada à conselheira Andrea Freitas, dirigentes do SINTERN.

O SINTERN participa ativamente deste caso desde sua origem. Ainda na constituição da NÉOS Previdência Complementar, o SINTERN juntamente com o SINDURB-PE e o SINERGIA-BA, integrou as negociações que culminaram na celebração do TERMO DE COMPROMISSO PARA CONCLUSÃO DE INCORPORAÇÃO - NÉOS PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR, instrumento construído para assegurar uma governança mais democrática, ampliar a representação dos participantes e assistidos e garantir direitos considerados essenciais durante o processo de incorporação das fundações de previdência complementar do Grupo Neoenergia.

Após assinatura do termo, em 11 de novembro de 2019, o SINTERN conjuntamente com o SINDURB-PE e o SINERGIA-BA, passaram a acompanhar, denunciar e questionar situações que, representavam descumprimento dos compromissos assumidos naquele Termo, circunstâncias que culminaram em sucessivas discussões institucionais e judiciais envolvendo a governança da NÉOS Previdência Complementar e os direitos dos participantes e assistidos. Nesse período, por duas vezes foram concedidas medidas liminares que suspenderam as tentativas da NÉOS de realizar eleições em desacordo com as regras democraticamente negociadas.

Portanto, causa profunda estranheza que, em 2025, sem a participação dos representantes do SINTERN, sem transparência e sem ética, o Sr. João Paulo, Presidente do Conselho Deliberativo da NÉOS, tenha conduzido negociações do Termo de Compromisso com os representantes do SINDURB-PE e do SINERGIA-BA, com o objetivo de extingui-lo, embora o SINTERN tivesse participado da construção do acordo original e acompanhado todo o histórico que deu origem ao Termo de Compromisso. Para o sindicato, essa circunstância reforça a necessidade de total transparência sobre todos os acontecimentos que sucederam àquele processo, culminando na celebração de um Instrumento de Transição entre o SINERGIA-BA e o SINDURB-PE, que retirou dos participantes e assistidos o direito de debater e deliberar sobre a governança, além de restabelecer as eleições de 2024, que estavam anuladas judicialmente. Os dirigentes do SINERGIA-BA e do SINDURB-PE que assinaram o Instrumento de Transição terão de explicar a todos os participantes e assistidos da NÉOS por que decidiram retirar direitos e restabelecer eleições já anuladas.

A exclusão do SINTERN, suscita legítimos questionamentos quanto à observância dos princípios da transparência, da boa-fé institucional, da participação e da governança que devem orientar as relações entre a entidade e as representações dos participantes e assistidos, especialmente à luz das boas práticas estabelecidas pelo órgão fiscalizador.

É dentro desse contexto que o SINTERN analisa os fatos narrados por Liane Chacon em sua Carta Aberta. Os acontecimentos não podem ser tratados como episódios isolados. Eles suscitam sérias preocupações sobre a condução da governança da NÉOS, sobre a independência dos representantes dos participantes e assistidos, sobre respeito a divergência de opiniões entre representantes das patrocinadoras e dos representantes do participantes e assistidos, o que é da própria natureza das entidades fechadas e, acima de tudo, sobre a necessidade de que decisões de elevada gravidade sejam sempre fundamentadas em critérios objetivos, transparentes e compatíveis com os princípios que regem as EFPC e absoluta observância dos princípios da legalidade, da motivação, da transparência, do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal.

Também considera extremamente preocupante que representantes eleitos para exercer fiscalização, formular questionamentos técnicos, cumprir seu dever fiduciário e defender os interesses dos participantes e assistidos passem a sofrer medidas disciplinares que suscitam dúvidas quanto aos seus fundamentos e às consequências institucionais que produzem quando apresentarem opiniões divergentes com os interesses da patrocinadora. Mais do que atingir pessoas, decisões dessa natureza repercutem sobre a confiança dos participantes e assistidos, sobre a independência dos órgãos de representação e sobre a própria credibilidade da governança da NÉOS.

Um chamado às entidades de defesa da previdência complementar

Diante da gravidade dos fatos relatados na Carta Aberta e dos acontecimentos que vêm sendo acompanhados pelo SINTERN, desde a sua origem, o sindicato conclama as entidades nacionais comprometidas com a defesa da previdência complementar fechada, especialmente a PREVIC, ABRAPP e a ANAPAR, para que acompanhem atentamente este caso e promovam, no âmbito de suas competências institucionais, as medidas que entenderem cabíveis para assegurar a observância dos princípios da boa governança, da transparência, da independência dos representantes dos participantes e assistidos, do devido processo legal e da integridade das instituições de previdência complementar. O fortalecimento da previdência complementar depende da confiança dos participantes e assistidos. Essa confiança somente será preservada quando situações que suscitam dúvidas relevantes quanto à governança e à independência da representação forem tratadas com absoluta transparência, imparcialidade e rigor institucional.

Governança se constrói com transparência

A boa governança pressupõe diversidade de opiniões, independência técnica, respeito às divergências e segurança para que representantes possam exercer plenamente suas atribuições.

Questionar decisões não representa deslealdade. Fiscalizar não representa afronta. Divergir faz parte do exercício responsável da representação.

Representantes dos participantes e assistidos não ocupam seus cargos para simplesmente homologar decisões previamente estabelecidas. Sua missão é defender os interesses daqueles que representam, apontar riscos, solicitar esclarecimentos e contribuir para o fortalecimento institucional da entidade.

A NÉOS administra um patrimônio construído ao longo de décadas pelos trabalhadores do Grupo Neoenergia. portanto, o patrimônio é do trabalhador e seus representantes devem defender esse patrimônio e não em interesse próprio ou das patrocinadoras. Por essa razão, suas decisões devem observar os mais elevados padrões de ética, transparência, responsabilidade e imparcialidade.

O SINTERN continuará acompanhando este caso em todas as instâncias cabíveis, defendendo o cumprimento do Termo de Compromisso assumido, a boa governança, a transparência institucional, a independência da representação e os direitos dos participantes e assistidos.

O sindicato reafirma seu compromisso histórico com a defesa da previdência complementar, da democracia institucional, da ética, da transparência e do fortalecimento das entidades que administram o patrimônio dos trabalhadores.

Não há boa governança quando decisões de elevada gravidade deixam dúvidas quanto à sua fundamentação, à observância do devido processo legal e ao respeito à independência da representação.

Defender a transparência, a independência e o respeito aos compromissos firmados é defender o patrimônio, os direitos e a confiança de milhares de participantes e assistidos.